sábado, 11 de outubro de 2014

Melhor idade

Esses dias não se fala de outra coisa se não o mês das crianças, tudo é pra elas. Por aqui tem um lar dos idosos que se chama Nosso lar, é uma instituição filantrópica e muitos idosos estão lá, por não terem pra onde ir. Seu José me falou que chamar a terceira idade de melhor idade é o mesmo que chamar uma grávida de virgem. Não vi poesia nessa fala, vi a tristeza em seus olhos. É interessante como nós crianças vemos os pais e mães como heróis, aqueles serem super sabidos, super poderosos que acolhem e conseguem nos ampara sempre que precisamos. Porém, nós adultos vemos que a coisa não é mais do mesmo jeito com o passar dos tempos.
Os heróis também ficam carentes de carinho e de atenção, eles passam a fala coisas sem nexo, passam a ter suas necessidades diferenciadas e as vezes ficam como crianças. lembro que minha avó era uma mulher sabida, gostava de contar histórias, em seu último ano conosco passou a se comportar diferente, vi minha mãe cuidar dela como quem cuida de uma criança, quase tudo igual, chegando ao ponto de minha avó a chamar de "mãe". Eu adolescente, via a relação das duas de tanto afeto com um olhar de curiosidade. Hoje entendo melhor seu José, a bengala lhe trás uma certa dignidade como ele diz. Favorece o equilíbrio, mas assim como uma criança, ele acha o passeio ao redor da instituição uma odisseia, e chegar ao fim do quarteirão inteiro é uma vitória. Sabe que qualquer queda ou trombada com alguém ou algo pode ser motivo de fratura, e fratura é motivo de preocupação na sua idade.

Joana Costa Minha vó

Ela na cadeira que eu herdei


E nas voltas que o mundo dá, os papéis se invertem, o que foi construído ao longo dos anos é que vai ser o diferencial quando o corpo já não obedece mais a cabeça. O afeto delas duas que presenciei foi resultado da relação afetiva que mãe e filha tiveram e que não estão mais conosco. E como diria Riobaldo, "a saudade é uma espécie de velhice" E nela mora as coisas mais belas que se viveu. E nessa cadeira eu leio e viajo, é minha nave espacial.

Um comentário:

  1. Eu não a invejo, caríssima Ana. Inveja é sentimento pequeno, mesquinho. Mas como eu desejo escrever assim como você o faz. Imagino, até, que nesses momentos você entra em êxtase - algo como estado de Graça - ou, no mínimo, usa pluma e alma para obter tão belos resultados. Cazuza, certa vez, referindo-se "Que País é Esse", obra de Renato Russo, disse ter uma inveja criativa para compor "Brasil": Caso seja possível tê-la, eu a desejo!

    ResponderExcluir