sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Das cartas que nunca te darei

Costumo deixar as gavetas de saudade sempre bem fechadas, mas há dias que o mofo dentro delas resolve espalhar seus esporos pelo vento. Hoje o dia está como aquele fatídico dia que você se foi, muita chuva, que me faz lembrar a aflição de não poder viajar pra vê-la por falta de teto para voar. E o mofo da saudade faz arder os meus olhos. Tanta coisa já se passou desde então. Os meninos cresceram tanto, o Pedro já está prestes a ir pra universidade como você previu, o Mateus recuperou as notas e a cicatriz do acidente está ficando bem fininha. E eu nunca mais tive coragem de retornar a sua casa, nem sei se um dia terei.
As chuvas de novembro me levam a você, mas muita coisa continua como antes. Eu ainda cheiro as caixas de chocolate quando abro, ainda fecho os olhos lembrando de cada natal nosso. E lembro que você dizia ser um mau costume esse meu cheira a caixa de chocolates. Os panetones lembram os de sua preferência, e voltei a organizar as roupas por cores no armário, a dobrar os lençóis para que fiquem do mesmo tamanho como você me ensinou. E ainda tomo banhos de chuva, ainda sou "vexada" querendo tudo pra hoje, ainda não cresci.
E nas voltas que o mundo dá, o tempo passa, tira muita coisa do foco, mas não cura nada. Vou fechar a gaveta, vou vedar com fita de lembranças e encarcerá-la no fundo do mar da tristeza, para que lá ele nunca mais possa se abrir e solta seus esporos. Saudade de você mãe.

Um comentário:

  1. A gente vai lendo e imaginando cada cena dessa sua película. O filme aqui exibido tem uma densa emoção, traduzida pela saudade que insiste em existir. Há como esse seu mar infindo tem coisa guardada. Decerto que não só de tristeza. Parabéns por mais essa pérola, Ana Débora!

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