terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Estante

Dei uma arrumada na estante, para começar bem o ano, primeiro limpei com sal todas as prateleiras, pois o que acalma é a água salgada não a água com açúcar como nos ensinaram. Envernizei para que poeira não encontre morada. Coloquei os livros de tristezas e mágoas na prateleira mais alta para dificultar o acesso, eles são poucos. Os de alegria coloquei na frente, mas precisamente na do meio, para que sempre eu possa ver e sorrir, guardei as fotografias numa caixa linda e cheia de adesivos de viagens que ficaram na memória, deixei a bagagem mais vazia. Os mais incomuns, mais felizes e alegres estão espalhados pelo chão, assim, quando eu andar tropeçarei neles e poderei ficar um pouco mais em suas companhias.
Quero que a estante comporte apenas o peso que possa suportar. Não quero nuvens negras, mas o sol de verão me dezembrando todos os dias do ano, com o cheiro da primavera e das noites enluaradas cercada pelas estrelas no manto azul do céu onde pirilampos possam iluminar o voo nas plantas agradecidas pelo orvalho da noite.
E nas voltas que o mundo dá, quero por perto lembranças boas, doces de caju, carambolas e suco de pitangas colhidos na alegria de quintal. Um dia depois do outro cada um com suas peculiaridades, sorriso de criança. Paredes marcada de bola e pés descalços, patas de gato e folhas no chão, como anda a minha varanda onde gosto de ler. Por que como disse aquele menino sabido: "A mente só carrega o que é bom, não tem espaço para o que não traz alegrias". E eu completo, quero minha vida como a estante que arrumei. E da série pra sempre. A minha mão na sua. E hoje soltamos pipa no final da tarde.

2 comentários:

  1. Sem que precise esforço, Ana Débora, leio nas entrelinhas dessa sua Estante: "Hoje eu quero paz de criança dormindo", como bem disse Dolores Duran, sugerindo toda a paz que há no mundo.

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  2. Se essa prosa não for poesia, eu deixo de escrever poemas!

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