terça-feira, 28 de junho de 2016

Batata assada

Vindo na rua hoje ouvi um rapaz falar para outro: "Tua batata tá assando". Eita, foi como ligar o botão do play. Tive a sorte imensurável de nascer numa cidade miudinha feito eu lá no interior da Paraíba. Naquele tempo as casas viviam com portas abertas, era só girar a maçaneta e entrar, nem precisava pedir licença pra chamar os outros pra brincar na rua. Os quintais eram grandes e os muros serviam só para delimitar o território, não eram altos, nem haviam portões com cadeados, a gente corria descalço por todo canto.
Na véspera de São João o dia começava cedo, era preciso colher o milho na sítio de seu Cicero, ou comprar na feira, o milho quebrado no dia, daí começavam os preparativos da pamonhada. A fogueira era acessa precisamente as seis da tarde, hora que Isabel acendeu a dela pra anunciar o nascimento de João, o Batista. Também era a hora que saíam as primeiras paneladas de pamonha e a canjica era servida quente, era preciso comer pelas beiradas pra não queimar a língua, o queijo coalho comprado ali em seu Pedim do queijo se derretia dentro do prato de canjica quente.
Na vizinhança, todos trocavam comida de milho numa grande confraternização. Tinha também as bombas que se chamavam "beijo de moça", e a gente colocava dentro de latas de leite vazias pra ver elas pularem longe. Também era na bodega de D. Naninha que as buchas de aço, essas de lavar louças eram compradas pra gente amarrar num pedaço de barbante e tocar fogo pra girar e ver as bolinhas de fogo caindo no chão, e como era lindo!
No final da rua, já perto do cemitério, tio Paizinho vizinho de D. Terezinha que tirava o mal olhado de todo mundo, colocava na radiola a sua mais nova aquisição, o disco novo de Luiz Gonzaga que se revesava com o do trio nordestino, e todos era convidados a dançar forró. Foi por lá que aprendi a arrastar chinela, ou melhor a dançar na ponta do pé, afinal meu parceiro era sempre o Célio e ele era muito maior que eu. Assim, saí de Esperança, mas ela nunca saiu de mim.
As 22:00 precisamente tudo silenciava, somente os mais destemidos permaneciam perto do que restou da fogueira pra se esquentar com as últimas brasas e assar batata doce nas cinzas. "Foi numa noite igual a esta..." Que me sentei no meio fio e descobri o "samboque" do dedão arrancado, nem lembrava de quando havia sofrido o tal tropicão, mas nada que uma saliva materna não resolvesse. 
E nas voltas que o mundo dá, naquela noite fui pra cama cheirando a fogos, canjica, canela e fumaça, com um pedaço do dedão arrancado, enquanto a minha batata estava na cinza assando.

Um comentário:

  1. Boa tarde! Como foi bom ler e ver o nome de "Pedim" do queijo. Saudoso Pai!

    ResponderExcluir