quarta-feira, 2 de novembro de 2016

As flores de plástico não morrem

O dia hoje amanheceu particularmente bonito, o sol chegou cedo, fiquei com uma preguiça de sair pra reverenciá-lo, afinal, hoje é feriado. Deitei e preguicei mais um pouco, lembrei dos dias de finados em nossa casa, la na terrinha, sempre precisava levantar cedo, tínhamos visitas no decorrer do dia, eram os tios e tias que vinham visitar os parentes mortos, a rua de cemitério era um vai e vem de pessoas desde o dia anterior, mas dentro de casa, tinha cheiro de bolo, café, tinha abraços e beijos e a confraternização era regada com muitas lembranças de infância compartilhadas pelos tios, tias e primos, e ela sempre muito atenta sorria dos momentos vividos.
No dia de finados, havia mais uma sensação de festa e reencontro do que celebração da morte, era uma celebração de vida mesmo. Não costumava ser triste. Talvez por isso, ainda gosto tanto de flores, até a Angelica e aquele "mosquitinho" que ela sempre colocava nos arranjos de cemitério, lugar esse que depois de adolescente nunca senti vontade de adentrar, minha covardia não me deixa.
Hoje imagino como deve estar a rua do cemitério, cheia de gente, muitas flores, orações e velas. Por aqui não vejo isso, a morte saiu de casa e foi para os crematórios e lugares especializados de velar corpos, é tudo tão impessoal. Então não parece ser dias de finados, só mais um feriado no meio da semana pra dar preguiça de continuar a jornada.
E nas voltas que o mundo dá, hoje mandei flores pra ela, não as de plástico que parecem imutáveis e como cantou o Antunes: "As flores de plástico não morrem", mas a vida só é linda por causa de sua finitude. E hoje fiz bolo de banana, uma receita nova vegana, o Mateus me ajudou, não tivemos visitas, mas ela e todos os que fizeram parte dos novembros de minha vida, gritam em mim hoje. Sem nenhuma tristeza como naqueles novembros de outros tempos.

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