quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Quitanda

Na minha antiga casa havia um jardim imenso, tinha um coqueiro, duas castanheiras e um monte de plantas de todos os tamanhos, depois do muro do quintal havia uma plantação de algodão, muitas árvores e barreiros, era lá que a gente enchia as fraudas que eram amarradas como se fossem barrigas pra gente encher de chumaços brancos, e quando se passava pela cabeceira dos leirões onde tinham pés de erva doce, todo mundo ficava cheiroso. A competição pra ter a barriga maior de algodão era pra comer doce de tomate selvagem colido por ali mesmo.
Os dedos cheios de verrugas por contar estrelas a noite eram salpicados de leite de avelós pra elas desaparecerem. Onde hoje fica a casa dos Caetanos haviam uma imensa laranjeira, era lá que a gente contava as histórias da noite anterior, tinha fruta o ano todo, ela era a minha amiga, e chorei quando a derrubaram, em noites de lua cheia a mãe das águas faziam os sapos cantarem e a gente ouvia histórias assombrosas. 
O tempo passou, a plantação deu lugar a um monte de casas, a cidade se expandiu e tudo se foi, coisas do progresso. Minhas crias vivenciaram coisas parecidas, quando o caçula foi passear no quintal da Carmita, o mar pra ele era tudo, os dragões verdes (boias) navegavam nas águas turbulentas, os cães com seus nomes peculiares faziam a festa.
No nosso quintal, o cajueiro já foi nave espacial, as goiabeiras pontos de observações de navios, as goiabas em meses de ventania bombardeavam o chão e os cães corriam, era a nossa versão de chuva de meteoros e os dinossauros eram eles correndo pra casinha em busca de abrigos. A vida é assim, uma quitanda, tem frutos imaginários, tem frutos doces colhidos nas árvores, tem flores brotando em dias primaveris e a gente vai desfrutando dessas delicias independente da idade cronológica. E nas voltas que o mundo dá, sinto saudades da laranjeira amiga dentre tantas outras que tivemos. E ontem plantamos uma nova no nosso universo particular, para substituir a que caiu na última ventania de agosto, também, como disse Mateus "a bichinha tava velhinha". Que bom que você chegou primavera!

Nenhum comentário:

Postar um comentário