domingo, 20 de setembro de 2020

Destralhar-se

Pessoa disse certa vez: " há um tempo que é preciso abandonar as roupas usadas" em seu poema tempo de travessia, Já Belchior cantou: "O passado é uma roupa que não nos serve mais". Minha mãe sempre sábia, dizia pra gente tirar do armário o que não servia para poder destralhar-se. A chegada da primavera é sempre tempo de renovação, aqui temos o dia da faxina da primavera. Nela a gente se destralha de coisas velhas, quebradas, usadas, das tralhas. 
O processo de destralhar começa com o pensamento de se livrar das coisas velhas, depois a gente começa com a limpeza, tira tudo que não nos serve mais. A chegada do sol depois de um longo inverno, oferece um novo ânimo e o processo fica mais leve. Deixar pra trás o que já não tem serventia é libertador. Existe um fio nas coisas que a gente possui, e quando a gente os liberta e corta esse fio, o peso dele vai embora. Deixar um ramo de boldo no quarto e um pouco de carvão também equilibra as energias e tira o cheiro ruim deixado pelos fungos que foram tirados depois do inverno.
Há uma profunda sabedoria nos ensinamentos desses pensadores, acho que Freud sabia disso. Deixar fluir, deixar que se vá, seja pensamentos, sejam rupas velhas, bulas de remédios, sapatos que não cabe mais nos pés... Se deixas sair o que há em ti, o que deixas sair te salvará. Se não deixas sair o que está em ti, o que não deixas sair te destruirá, arremata Jesus no evangelho de Tomé.
E nas voltas que o mundo dá, para se destralhar ainda mais serve alguns conselhos: pare de comer carnes, se livre de objetos quebrados, roupas velhas, pensamentos destruidores, objetos inacabados, pare de fumar, repense, reuse, recuse, recicle, recupere.

Um comentário:

  1. Belo e sábias palavras, me motivam a faxinar também meus pensamentos, minhas paixões que já não me servem mais, sentimentos❤️ que estão jogados lá dentro e vez por outra acabo tropesando. É hora de destralhar.

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