terça-feira, 2 de novembro de 2021

A vassoura

A casa dela era simples, a porta de entrada tinha duas partes, a superior só fechava no fim do dia, a parte inferior servia de suporte para abrigar os braços cansados quando parava pra ver o rua ou conversar com uma amiga próxima. O chão parecia um uma goiabada de tão vermelho, salpicada de círculos de luz que vinha das frestas do telhado de argila vermelha. A cozinha era o melhor lugar da casa, sempre com o fogo de lenha cedinho acesso de onde emergia o aroma do café torrado com rapadura e pilado no pilão de madeira. A lata de biscoite sempre tinha uma bolacha de canela pra servir aos netos que a visitavam.
A cadeira de madeira e palhinha era o trono, lá ela tercia lentamente seu crochê branco como quem terce detalhes de vida, memórias guardadas e orações que professava. O seu quintal era de terra, tinha plantas e temperos que perfumavam o ambiente. No final da tarde, a vassoura feita de ramos de alecrim, manjericão e mastruz amarrados com agave no cabo de madeira era o seu material para limpar o quintal, esse previamente salpicado de gotas de água para minimizar a poeira.
Enquanto ela limpava seu quintal e entoava cantos de sua infância, com quem acariciava a terra terra com sua vassoura , o cheiro de terra molhada se misturava com o das ervas que pertenciam a vassoura em um ritual que dava gosto de ver. Enquanto saboreava uma bolacha de canela, eu ouvia atentamente seus ensinamentos. Ela dizia: "Varrer é uma libertação". "É varrendo que se joga fora o lixo da vida e se agradece pelo que tem."
E nas voltas que o mundo dá, varrendo a casa ou o terreiro de terra  a gente bota as ideias em dia, se tiver triste, varra a tristeza, não para debaixo do tapete da alma, mas para fora. Se tiver com baixa autoestima varra pra fora com um  batom vermelho e cabelo hidratado, varra as auguras da vida com uma vassoura imaginária de um passeio no mato ou no mar. Tenha sempre uma vassoura, seja de ervas, de pelos sintéticos, seja imaginária, mas tenha uma vassoura e varra. Não é atoa que a vassoura é o símbolo das mulheres livres.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Lado a lado

Quando Ulisses foi obrigado a ir pra guerra de Tróia, lá passou 10 anos e outros 17 em alto mar, lutando contra os caprichos de Poseidon, mas durante todo esse tempo, Penélope o aguardava e com astúcia desviava os pretendentes até a chegada de seu amado para retomar o seu trono, transformado em mendigo, somente seu fiel cão  e sua esposa os reconheceram. Sebastião Salgado, foi obrigado a sair do Brasil por pressões da ditadura, refugiou-se na França. Deixou sua esposa Lélia em Paris e percorreu o mundo em campos de refugiados, em garimpos, em florestas, e fotografou a miserabilidade da ganância humana. Durante sua jornada do herói, tanto Ulisses, quando Sebastião tiveram suas memórias, lugar de pertencimento e acolhimento protegidos e preservados por suas companheiras.
Há um provérbio Ute que diz: "Não ande atrás de mim, posso não saber liderar. Não ande na minha frente, talvez eu não queira segui-lo. Ande do meu lado para podermos caminhar juntos." O sucesso de todos os relacionamentos está baseado na parceria, no compromisso primeiro consigo, depois com o outro. Não se pode colocar no outro a responsabilidade da felicidade. Cada um é responsável pela sua. E nas voltas que o mundo dá, não importa é a certeza de ter sempre alguém pra segurar a mão quando precisar.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Pseudoconcreticidade

Tem gente que vive num mundo que parece não fazer parte da realidade que se vive, defendem um sistema ditatorial com se fosse uma revolução, não levam em consideração as dores que povo passou e ainda passa, negam uma doença que mata milhares de pessoas todos os dias, pedem a privatização de programas de saúde, dos mesmos que se valem pra ter saúde. Do outro lado tem as pessoas gratiluz, que acham o lado bom de tudo na vida, que defendem a resiliência e a compreensão, que acreditam em felicidade plena e ficam feliz por coisas pequenas. Essas pessoas vivem no mundo da pseudoconcreticidade conceito desenvolvido por Karel Kosik quando estudou os fenômenos sociais, ele defende que o homem é capaz de criar suas próprias representações das coisas.
Não vou dizer que tenho apreciado o ódio que tem sido destilado nos últimos meses contra tudo e contra todos, mas também não entendendo esse povo que consegue se alegrar com a situação geral do país, seja sanitária, econômica, politica, social. Tá tudo um caos. Não consigo sorrir sem sentir um dedinho de tristeza com tanta gente passando fome. Gente morrendo, rostos conhecidos, nomes conhecidos. E ao mesmo tempo, gente conhecida, rostos conhecidos, desafazendo da miserabilidade humana que se instalou no país.
Esses dias um policial surtou no farol da Barra em Salvador, e se tornou alvo de politicagem, criticas e nem a turma do "gratiluz" se manifestou como forma de minimizar as polêmicas. Vivemos dias sombrios, chegamos ao nosso limite e temos ainda que seguir em frente, com pessoas que negam a ciência, mas não conseguem viver sem ela. E nas voltas que o mundo dá já dizia Kosik "sob o mundo da aparência se desvenda o mundo real, por trás da aparência externa se desvenda a lei do fenômeno".

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

As avós moram dentro de nós

Durante minha vida tive o contato apenas com uma avó, as demais já não existiam, o meu avó paterno morreu no dia que eu nasci. Mas teve Dona Joaninha a avó materna da rua do cemitério. Na casa dela o chão era cinza, o teto tinha furos na telha que deixava o sol entrar e fazia bolinhas de luzes no chão, o cheiro de café no fogão de lenha era um aroma dos deuses, tinha pombos no quintal e romãs. A lata de biscoito de canela sempre estava cheia, e sua cadeira onde fazia crochê (hoje comigo) era o seu trono de madeira e palha.
Na casa da avó se pode tudo, comer biscoito antes do almoço, subir na árvore do quintal, brincar de cozinhar, ajudar na torra do café. O domingo era o dia das visitas, os tios vinham visitar e os primos de fora eram novos colegas de brincadeira. A gente brincava de cobra cega, pega-pega, tinha arenga, tinha abraços, nunca castigos.

Mãe, tios e tias

Mãe e tias

A casa da avó quando se fecha é uma tristeza dobrada, a casa-alegria deixa de existir, os encontros dominicais param de acontecer, as alegrias se mudam. A casa da mãe passou a ser a casa vó, um recomeço, mas ela também fechou. E o mundo gira, novos netos chegam, a casa muda de endereço, mas as avós continuam morando em nós, nas lembranças, nas receitas, nos cheiros e sabores. Por que na casa da vó pode tudo.
E nas voltas que o mundo dá, a casa da avó é a casa-alegria-sonho-realidade. Os nossas avós vivem em nossas mães, elas guardam receitas de família, histórias, memórias e tudo que as representam. Hoje não tenho mais a casa da avó pra visitar, nem a de mãe, mas as visito sempre em minhas lembranças mais doces. Feliz que tem a sorte de conviver com as avós-mães, elas são eternas e moram dentro de nós.

domingo, 18 de outubro de 2020

Alegrias de quintal

Uma das minhas alegrias é ir a feira nos sábados, lá tem uma variedade de sabores, cores e texturas que me recordam delicias de toda hora. Ontem tive uma grata surpresa, na barraca de Dona Nina tinha tomates de quintal ou de jardim, mais conhecidos como o cereja. Os dela são docinhos como os da casa de Tita, na minha infância a gente colhia no pé, e também se fazia doce de tomates. Comprei alguns e vou plantar no quintal, quem sabe o meu também frutificará?

Tomatinhos
Avenida Olivia Flores ontem a noite

Não faz muito tempo plantei novas mudas de muita coisa que trago da feira, agora tem manjericão, hortelã, cidreira..., tudo longe do chão pra os cães não alcançarem, agora teremos tomates do quintal. A terra é assim, um pedaço do meu corpo, o seio de onde me alimento. Não quero ladrilhos no chão, não quero cimento. Quero a alegria de ver o chão coberto de flores de goiaba com estão agora, quero a sonoplastia das abelhas sobrevoando as flores, quero pitangas vermelhas enfeitando a árvore como se fosse natal.
E nas voltas que o mundo dá, o jasmim se prepara para florir, outubro chegou com calor de verão em plena primavera e os apetes de flores também estão pela cidade. Quero a plenitude da terra mãe, do convívio com os seres iluminados, para mim o quintal e o jardim, são altares que celebram a grandeza da vida como dizia Santo Agostinho. 


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Bordando a vida

Minha mãe era uma excelente pedagoga sem nem mesmo ter ido a escola, certa vez, como castigo por um comportamento inadequado ela me deu uma tarefa. Bordar um caminho de mesa em ponto cruz, o tecido era um linho branco. Assim, além dos pontos eu ainda tinha que contar as tramas do tecido (tenho esse caminho até hoje). E só poderia sair de casa depois da tarefa concluída. Levei dois meses pra fazer. A principal lição foi não se mostrar o que não si é. Eu havia dito que a blusa da minha irmã era minha.
Detalhe do bordado

Avesso do bordado

De acordo com a sua pedagogia da presença, a gente deve mostrar o que é, e nunca se fingir ser o que não é. Por isso mesmo o bordado deve ser perfeito no avesso. O meu na época ainda não foi um exemplo de perfeição, mas vamos combinar que ficou bonitinho. Aprendi a lição direitinho e guardo esse caminho pra lembrar dela sempre que necessário.
As vezes a vida da gente parece perfeitinha, e a gente finge tá tudo bem, quando por dentro tá tudo virado de pernas pro ar. Pra evitar esse desbordado, é preciso falar o que sente quando sente, pra não embolar a linha por dentro. A vida é um linho em branco e a gente colore de acordo com as cores do pensamento, das emoções. Então, que seja colorida, bem alinhada, mas de vez enquanto pode se desarrumar um tiquinho. Portanto, faça meditação, mas dê uns gritos vez por outra. Beba água, se hidrate, mas se desidrate com um vinho vez por outra.
E nas voltas que o mundo dá, a agulha é um pensamento, a cor da linha emoção e o tecido é a vida limpa e solta, que carece de atenção, de cor, de vida. E a gente vai desenhando a história vivida nele. Não me tornei a bordadeira que talvez ela gostasse, mas ando colorindo a vida com lindos bordados coloridos no meu imaginário metafórico, e que nós todas possamos nos tornamos as bordadeiras da vida coloria, com pétalas de felicidade, rosas de noites quentes de verão, luas e sóis que possam oferecer abrigo e calor quando a gente precisar.

domingo, 20 de setembro de 2020

Destralhar-se

Pessoa disse certa vez: " há um tempo que é preciso abandonar as roupas usadas" em seu poema tempo de travessia, Já Belchior cantou: "O passado é uma roupa que não nos serve mais". Minha mãe sempre sábia, dizia pra gente tirar do armário o que não servia para poder destralhar-se. A chegada da primavera é sempre tempo de renovação, aqui temos o dia da faxina da primavera. Nela a gente se destralha de coisas velhas, quebradas, usadas, das tralhas. 
O processo de destralhar começa com o pensamento de se livrar das coisas velhas, depois a gente começa com a limpeza, tira tudo que não nos serve mais. A chegada do sol depois de um longo inverno, oferece um novo ânimo e o processo fica mais leve. Deixar pra trás o que já não tem serventia é libertador. Existe um fio nas coisas que a gente possui, e quando a gente os liberta e corta esse fio, o peso dele vai embora. Deixar um ramo de boldo no quarto e um pouco de carvão também equilibra as energias e tira o cheiro ruim deixado pelos fungos que foram tirados depois do inverno.
Há uma profunda sabedoria nos ensinamentos desses pensadores, acho que Freud sabia disso. Deixar fluir, deixar que se vá, seja pensamentos, sejam rupas velhas, bulas de remédios, sapatos que não cabe mais nos pés... Se deixas sair o que há em ti, o que deixas sair te salvará. Se não deixas sair o que está em ti, o que não deixas sair te destruirá, arremata Jesus no evangelho de Tomé.
E nas voltas que o mundo dá, para se destralhar ainda mais serve alguns conselhos: pare de comer carnes, se livre de objetos quebrados, roupas velhas, pensamentos destruidores, objetos inacabados, pare de fumar, repense, reuse, recuse, recicle, recupere.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Um amor maior que o mundo

Um dia pediram para eu definir boniteza e amor em uma palavra, eu escolhi PEDRO. O meu amor primeiro, o amigo, companheiro, filho amado que eu já amava antes de ver pela primeira vez, antes de existir mundo. Depois de sua chegada, a vida ficou colorida, o sons passaram a ter outra sinfonia e a casa ganhou outro perfume. E assim a gente vai vivendo já se passaram 23 anos de sua chegada, de transformação de nossas vidas.
Eu e Peu

O sorriso que eu amo ver
E nas voltas que o mundo dá, a minha maior alegria é ver esse sorriso estampado na sua cara, desejo a você toda a felicidade do mundo e tudo que for necessário lhe seja permitido. Felicidades pra sempre. Feliz idade nova.
 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Viver é um descuido prosseguido

Guimarães que tem nome de rosa certa vez escreveu que "viver é um descuido prosseguido", mas quem sabe viver? A resposta é simples, não sabemos. A vida vem assim, sem um manual a gente vai se orientando pela bússola do amor, se ele está presente tudo se arruma, e a felicidade aparece delicadamente em horinhas de descuido como disse o poeta.
Arrumando um dos armários achei os tijolinhos de afetos, recadinhos das crias quando crianças, lembrancinhas de desenhos ainda mal desenhados e garranchos de letras ainda em formação. Encontrei entre eles as lembranças de risos frouxos e abraços apertados, pessoas que se foram e outras que estão longe. Lembrei como se fosse ontem os amore de hoje. A família cresceu um pouco a casa também.
Não vieram com bula ou manual, a gente foi aprendendo a amar, a superar as dificuldades que surgiram, a gente foi crescendo, e  a maternidade me transformou. Meu samurai cresceu e a agora se aventura em sua bicicleta pelas trilhas da vida. O meu pensador também se tornou um homem forte e a vida segue. 
E nas voltas que o mundo dá, o poeta sabia das coisas, a felicidade acontece nas horinhas de descuido, esqueci de terminar a arrumação do armário, viajei nas lembranças da infância dos meninos. Os desafios de aprender a andar, as medalhas da natação, as idas as aulas de Karatê, as festinhas da escola agora são lembranças, os desafios são outros por hora e vamos prosseguindo, aprendendo a viver e se descuidando aqui e acolá. Por quê viver é isso: rasgar-se e remenda-se.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Caleidoscópio e cacos

O vitral é feito com vidros coloridos em janelas que refratam a luz do sol quando passa por eles, foi muito utilizado nas igrejas da Idade Média. Um dia Sir David Brewster juntou pedacinhos de vidros coloridos e criou o caleidoscópio que quer dizer "vejo belas imagens" é uma palavra que vem do grego antigo kalos (belo), eidos (imagem) e scopéo (vejo).  E assim aquele objeto lindamente forma imagens nunca repetidas com uma quantidade de caquinhos que vão se arrumando de acordo com as voltas que o objeto faz.
A vida é como um vitral colorido e que passa a luz do sol por ele desenhando coisas no chão, iluminando modesta e coloridamente os passos do caminho, mas vez por outra alguém joga uma pedra na janela e o vitral se esfarela. É aí que mora a diferença da ação, existe uma escolha jogar os caquinhos fora ou criar um lindo e emblemático caleidoscópio ou vitral.

Vitral
Fonte: Google
O mais fascinante do vitral não é ele em si, mas os cacos estáticos, esperando a luz passar por eles. Já o caleidoscópio é dinâmico, frenético como a vida deve ser. E tem cacos azuis que lembram dias de sol e céu limpo, tem cacos verdes que recordam dias no mato, os cacos vermelhos de paixões efêmeras, os amarelos de amores maduros, os laranjas de magníficos pôr do sol, os lilases que lembram amores distantes, assim como os gris que recordam pessoas que não voltam mais.
E nas voltas que o mundo dá, os vitrais são lindos, mas  o caleidoscópio tem a capacidade de juntar caquinhos, criar histórias, devolver risos soltos fazer valer a pena os dias que se passaram, são lembranças e não saudades, são lições e não mágoas. E assim a gente vai vivendo juntando caquinhos coloridos e pavimentando o caminho colorido sem medo da felicidade, sem o medo de as vezes fraquejar, mas a certeza de nunca desistir.

sábado, 8 de agosto de 2020

Amor e arte

Esses dias conheci uma linda história de amor. O João Miguel é um menino lindo de cabelinhos encaracolados que curte pinturas, ele é autista e sua mãe Gisele faz tudo pra garantir que sua arte continue. esses dias tiveram uma ideia muito legal, colocar as artes do João em canecas e passou a vender pra garanti as tintas dele. Não perdi tempo e garanti a minha. (alecrim dourado).
                                                              Pinturas de João Miguel

E nas voltas que o mundo dá, a arte do joão Miguel parece uma arte meio Van Gogh e esse amor mais lindo de mãe e filho deixou meu dia mais leve. 𝆕"Continue a pintar𝆕, continue a pintar𝆕, pintar, pintar..."𝆕𝆕𝆕

sábado, 25 de julho de 2020

Memória afetiva

Nós humanos temos na primeira infância as boas memórias que também são chamadas de afetivas. Freud dizia que elas são as mais importantes, pois nos acompanham pra o resto da vida. Por isso mesmo, ter cuidado com a criança e fazer reserva de boas lembranças é fundamental para um adulto saudável. O amor nunca deixou ninguém doente, a falta dele sim. Essas memórias são suprimidas por algum motivo, mas elas são tão fortes porquê foi aquelas que sentimos pela primeira vez que são acionadas quando a gente menos espera.
Na minha memória afetiva que é acionada por cheiros, imagens e sons mora a laranja cravo. Na feira, a tangerina, a bergamota e outras laranjas cheirosas como a mexerica e todas as suas variantes com colorações vibrantes e cheiros diferentes estão sempre a despertar nossos sentidos. Ha muito tempo não encontrava a laranja-cravo, aqui chamam de tangerina catingueira, a moça da feira hoje me disse que ela "fede".
Gosto de ir a feira pra ver as cores, sentir cheiros e sabores. É um dos meus passeios preferidos, mas hoje já no final da safra dessas meninas, encontrei a laranja-cravo, e ali mesmo ao comparar o cheiro entre as duas que encontrei a diferença foi gritante. Fechei os olhos e viajei pra o sítio da família Nascimento, onde meu pai tinha pés de laranja-cravo. e a gente fazia flores com as cascas, comia até não caber nada na barriga na hora do almoço. E no entardecer a gente ficava lá do alto da sua copa, vendo o céu alaranjar-se como a fruta doce que escorria pelas mãos e boca. E a gente comia cantando de tão bem que é viver. Hoje comi cantando, quem me conhece vai entender.

Tangerina


Laranja cravo

De sabor mais ácido, cheiro ainda mais marcante, a laranja-cravo hoje me trouxe memórias afetivas de casa de tia, de sítio de mãe, de brincadeiras com irmãos irmãs e sobrinhos. E nas voltas que o mundo dá, a minha primeira infância foi marcada de lembranças, não mais saudades. Pois como disse Pinto de Monteiro:
Esta palavra saudade
conheço desde criança
saudade de amor ausente
não é saudade, é lembrança
saudade só é saudade
quando morre a esperança.

domingo, 19 de abril de 2020

De repente

No dia 13 de março dei minha última aula, era uma sexta-feira e de repente, assim como cantador de viola, o mundo mudou, parou. Na segunda dia 16 não houve mais aula. O comércio parou, tudo fechou, as pessoas ficaram em casa. Nesses dias de isolamento social percebemos que o mundo que se conhecia caducou como disse Átila. E as mudanças hora sutis, hora impostas e tempestivas, foram muitas.
Hoje a gente se adaptou a dar aulas online, passamos mais tempo juntos, agora temos vídeo chamadas com pessoas distantes (todos os vivas à tecnologia), vimos a chegada de Bernardo, estamos testando novas receitas, pintamos as paredes da casa, escolhemos o livro e o filme da vez, ontem rolou os Stones ao vivo (at home), minha tia de mais de 90 anos agora tem "zap", a gente tem se falado com frequência.
Os livros agora são digitais, aquela mania de cheirar livro novo e pegar no papel ficou pra trás, as receitas com memórias afetivas ganharam a mesa, o tempo com os pets agora são maiores, pra compensar a falta do passeio, as compras vêm direto pra nossa casa, as contas são pagas sem pegar em dinheiro. E foi assim, de repente, como cantador de viola que as mudanças foram impostas.
Nesse meio tempo descobrimos "A vida Secreta das Árvores". Um livro científico, mas muito gostoso de se ler. Nele a gente percebe que o filme Avatar, é uma realidade da floresta. As árvores se protegem, se apaixonam, compartilham alimento, se comunicam e têm memória. Tudo que a gente teorizava, agora com certificado científico. Vale muito a leitura. Eu costumava dizer que o mundo precisava ser (caninizado), ou seja, ser igual aos cães, mas a gente precisa saber mesmo que a nossa essência é o amor a si, e ao próximo, nesse ordem, sem culpa.


Trechinho do livro


Nico e o cajueiro, alegrias de quintal.

Se a gente se portasse como as árvores e se incomodasse uns com os outros como elas fazem. Saberíamos que esse números da pandemia têm nome, sobrenome e família. Saberíamos nos comprometer em proteger o outro, mesmo os desconhecidos, mas todos os seres que respiram, saberíamos nos comunicar com uma linguagem de gentileza. Acredito que esse tal corona, veio para nos (árvorizar), pois precismos ser mais gentis, aprender a dizer o que se pensa com gentileza, respeitar o outro e se comprometer coma  vida. Abraçar mais e, sobretudo, cuidar do ambiente em que a gente vive, pois não adianta ter um discurso bonito e continuar jogando lixo na rua, na praia, continuar ignorando as pessoas ao seu lado, continuar o discurso de ódio que a gente tem visto com tanta frequência.
Não sei vocês que me leem, mas eu tomei um ranço pela camisa da seleção brasileira, que me mantenho a dois metros de distância dela por questão de preservação da minha saúde mental. Ah, Gaia, me perdoe! Ainda estou em processo de arborização. E nas voltas que o mundo dá, o isolamento social tem mostrado a cada um de nós o que precisa ser mudado,e primeira mudança vem de dentro pra fora, pois como dizia Rubem Alves: "Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Carpe Diem

Li no livro do universo ás jabuticabas de Rubem Alves:"Carpe Diem" quer dizer "colha a vida". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Ah, Rubem, nem te conto! Hoje colhi cajus e pitangas, o jasmim amanheceu florido, e temos abelhas no quintal, os passarinhos fazem a festa em plena primavera, achoque era essa a alegria de quintal que você tinha em seu paraíso a fazenda santa Elisa.



O dia deve ser colhido porquê é único e ele escorre pelas mãos como o sumo das frutas escorrem pela boca. Gosto de ler um pouco quando o dia começa, mas Nietzsche estava certo: "De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo —ler um livro é simplesmente algo depravado". Imagina se Nietzsche tivesse um quintal desses, e tivesse de escolher entre as depravadas e escandalosas noticias dos noticiários agora. É lama pra um lado, é óleo pra outro é direitos sendo roubados... A vida tá cheia de vixe, e eita.
E nas voltas que o mundo dá, é preciso desacelerar um pouco, experimentar o que dia tem a oferecer pra poder entender esse mundo doente. Combinamos esse mês de resgatar uma coisa boa por dia, vamos aprender a agradecer, a buscar alguma coisa ou acontecimento que nos ofereça um pouco de felicidade diária, como disse Guimarães: a vida é assim, quer da gente é coragem, e vamos combinar né? Pra ser feliz sem os rótulos que nos impõem é preciso coragem. Feliz primavera.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Grilo

Na estória do Pinóquio tem um grilo que o orienta como se fosse sua consciência, na de Mulan tem o Gri Lee que também é um guia. Quando meu mais velho era criança ganhou um presente de natal que nem lembramos qual era,mas na embalagem veio um gafanhoto, a gente pressiona ele no chão  logo ele pula sozinho. A decoração do presente se tornou O PRESENTE. Ontem recolhendo brinquedos para doação encontramos o nosso Gri Lee. Todo judiado pela ação do tempo e de tantas brincadeiras.

Gri Lee
Lembramos de tatas risadas que ele nos proporcionou e decidimos que ele ficaria conosco por mais um tempo. Lembrei da vez que nós compramos a sua primeira bicicleta achando que ia fazer sucesso, mas o brinquedo que mais fez sucesso foi um cavalinho de camelô. E nas voltas que o mundo dá, adoro fazer a faxina de primavera, é uma faxina coletiva, onde cada um doa o que não serve mais, joga fora o que não tem concerto. E, sobretudo guarda coisas que para muitos seria sem valor. O Gri Lee é a prova de que o conceito de riqueza varia muito.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Primavera

Deméter é a deusa grega da terra cultivada, da fertilidade e das estações do ano. Filha de Cronos e Reia, é também conhecida como Ceres na mitologia romana e tem seu nome derivado da palavra cereal, referindo-se a todos os tipos de grãos. Por ser neta de Gaia é considerada a reencarnação da mãe terra e cultuada em comunidades rurais antes da chegada do cristianismo. A conexão com Deméter é feita apenas colocando os pés descalços em contato com a terra.
A deusa teve vários filhos, entre eles, Perséfone a deusa da primavera e Despina a do inverno. Hades raptou Perséfone certa vez e a mãe em desespero se retirou do mundo e este entrou em decadência sem grãos, a vida definhava o gado morria. Então Zeus pediu a Hades para libertar sua amada. Ele o fez com uma condição ela deveria comer um bago de romã. Quem comer algo no submundo está condenado a voltar.
Ficou então estabelecido que Perséfone ficaria três meses com a mãe e o resto do ano com Hades. O primeiro período corresponde à primavera, em que os grãos brotam, saindo da terra e o segundo é o da semeadura de outono, quando os grãos são enterrados, da mesma forma que ela volta ao submundo.
Na Grécia antiga havia um festival "Tesmofórias", celebrado anualmente em outubro em honra a Deméter era praticado exclusivamente por mulheres, seguindo-se de três dias de festa pelo retorno de Perséfon do submundo, era oferecido uma bebida sagrada aos iniciados, mas a característica mais marcante desse ritual era a punição aos criminosos que agiam contra as leis sagradas e contra as mulheres.
Enas voltas que o mundo dá,mulheres do mundo uni-vos, precisamos encontrar o nosso elo com o sagrado feminino, colocar o pé literalmente no chão, saber nos defender e buscar nosso objetivos. Sejamos sempre primaveras.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Oração dos passarinhos

Um dia, Manoel de Barros escreveu que foi programado para gostar de passarinhos.Todos os dias cedo da manhã os passarinhos fazem uma oração aos céus com cantos de todos os tons e assobios se comunicando com o firmamento. Depois que Nico foi embora o hábito de colocar uma frutinha no cajueiro passou a morar em mim. Todavia, os beneficiários agora são os passarinhos que se alimentam e até brigam pelos pedaço de fruta.
Sempre tive o cuidado de ter plantas que produzem diversas cores de flores, mas eles agora estão se diversificando, hoje cedo tinha um cardeal e um pica-pau no meu quintal-aconchego-morada. As gatas ficam ali paradas a observar, os cães já não ficam mais em busca de caçá-los, e o cajueiro está com cinco ninhos chocando ovos. O pé de boldo com suas flores lilás oferecem alimento para os beija-flor, e todos os dias em troca eu recebo uma cantoria diversificada. Acho que é a oração dos passarinhos ao criador.
E nas voltas que o mundo dá, acho que assim como o Manoel de Barros, eu também fui programada para gostar de passarinhos, mesmo quando o dia envelhece e eles buscam abrigo nas árvores para dormir estão cantando em perfeita sinfonia. E assim como Quintana cujo nome lembra a quitanda que tem flores e frutas a venda, a gente segue passarinhando.

Poeminho do Contra
Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Passagem

Conversar com Rau Ferreira é voltar no tempo. Ontem ele me falou de umas pessoas interessantes que viveram na nossa amada terrinha, tinha Honório, Silvinha e Adalto, dois deles gostavam de cantar embolada de coco nas feiras livres da cidade. Não lembro desses, mas lembro muito bem de Adalto, esse para mim era um homem muito alto (eu era menina), ele costumava percorrer as ruas da cidade com a mão na orelha falando sozinho, lembra muito os jovens de hoje com seus celulares.
Ele era irmão de seu Adelino, o homem que fazia os doces mais saborosos da cidade, acredito que Marcos seu filho adotivo ainda os vende na feira livre da cidade, acredito que se George Tsoukalos se o visse diria que ele era uma alma evoluída que tinha encarnado no tempo errado e estaria usando seu Smartfone virtual. O fato é que naquela cidade emblemática haviam personagens maravilhosos, que do seu jeito criou um atmosfera vibrante, com diferenças intelectuais e evolutivas significativas. Não vi os cantadores de coco na feira, mas vi Adalto com seu fone virtual, comi inúmeras vezes o doce de coco caramelado de cor vibrante e que gostava de grudar nos destes e favorecer um festival de sabores no céu da boca.
E nas voltas que o mundo dá, lembranças doces, sem preconceitos sem mágoas e com um doce sabor de coco queimado, são dessas que fazem a gente saber que viver é guardar lembranças agradáveis é um alento nos dias difíceis de hoje, são ritos de passagem para uma vida simples e saborosa. Obrigada pela lembrança Rau.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A capa vermelha

Nos livros de Lobato a Emília tem uma canastra, onde guarda as coisas mais importantes pra ela, para muitos são apenas lixo e porcarias que ela acha por aí. Esse feriado aproveitei pra arrumar umas gavetas e encontrei minha "canastra", entre coelhinhos gastados, sapatinhos furados e fantoches surrados estava ela, a capa vermelha que eu costurei. Lembrei-me que a muito tempo atrás ele queria ser o super homem, não encontramos a fantasia dele em lugar nenhum, mas ele só queria a capa, então eu costurei uma. Pra mim , era só um pedaço de pano vermelho com um cordão pra amarrar no pescoço, mas pra ele era  "a capa".
Fechei meus olhos e lembrei do dia que o vento no quintal não ajudou e tive que ligar o ventilador para que aquela capa preguiçosa pudesse voar. Pra ele era uma segunda roupa, tinha que estar sempre limpa e  seca a sua espera da escola. Foi dormindo com ela que os sonhos ruins deixaram de existir, com essa companheira que agora dorme tranquilamente esquecida numa gaveta de lembranças que os superpoderes da alegria estavam pela casa. Lembrei do dia que a parede estava escrita com uma história que ele me contou, sim, porquê pra entender aqueles "hieroglifos" na parede somente com tradução simultânea.
Na parede da minha memória pude vê-lo correndo pela casa segurando a capa que o protegia de tudo, das dores do mundo, dos "ralamentos" que ardiam no banho e que dava coragem pra pular de um sofá pra outro sem medo de cair. Então fechei a caixa de lembranças, guardei-as para outras ocasiões. Fazer arrumação as vezes toma tempo por causa dessas coisas, organizar guardados é como um máquina do tempo. E assim como a Emília, eu também tenho uma canastra, quem não?
E nas voltas que o mundo dá, ser mãe de menino é saber que o herói está logo ali dormindo no quarto ao lado, que não precisa de capa, que vai ser sempre uma companhia e que eu não estou só. É ter histórias pra contar, e ter um mundo todo azul, ou vermelho como a capa que deu super poderes, assim como a  do Dr. Estranho, Super Homem, Mulher Maravilha, Thor, ou quem sabe de Leônidas, o líder dos espartanos. Todos já tiveram sua capa vermelha.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Tempo, tempo, tempo

O tempo é um senhor lindo, dias desses ele me veio em forma de menino e me mostrou como é bom viver, outro dia me apareceu dolorosamente envelhecido, com articulações prejudicadas carregando com ele a juventude e a infância nas costas e estava pesado, andava devagar, mas nunca é o mesmo que um segundo atrás. Ontem ele veio em forma de doce, aquela da infância, e também sofisticado em taça de vidro e eu o saboreei como se fosse o último. Ele foi gentil e me abraçou calma e longamente.

Filhós 

Musse 
Se mostrou com o cheiro das tardes ensolaradas de fabricar o chamado sonho com canela e açúca que Zirinha fazia, me apresentou a sofisticação dos doces de Nêm, o cheiro agradável das tardes da terrinha, me mostrou que ser feliz é ter tempo pra o que é bom, e eu o apresentei para meus filhos. E nas voltas que o mundo dá, gosto quando ele me lembra que meu baú tem lembranças boas que podem ser revisitadas, e que meus dias agora são sem dor. Ah, tempo seu lindo quero um tantão de você cada vez mais, como a terra árida que carece de gotas diárias de água fresca.